Nobreak para homelab: VA, watts e senoide pura

Como ler a ficha de um nobreak para homelab: VA x watts, autonomia, standby, interativo ou online, senoide pura com fonte PFC ativo e o NUT para desligar.

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Nobreak APC Back-UPS ES525 com tomadas no topo
Nobreak de entrada da APC. Foto: MSDN.WhiteKnight, CC0 (original).
Neste post

Aqui em casa, o papel de nobreak é da EcoFlow River 3 Plus em modo UPS. Mas muita gente que monta homelab vai de nobreak tradicional, e com razão: é mais barato e foi feito para isso. O problema é que a caixa traz três números que confundem: VA, watts e o tipo de onda.

Neste post explico como eu leria a ficha técnica de um nobreak para homelab, com o que dizem os fabricantes. Não testei nenhum modelo, então não tem recomendação de marca. É o caminho para você escolher o seu.

VA não é watt #

Todo nobreak anuncia um número em VA (volt-ampère), e esse é o número grande da caixa: 600 VA, 1200 VA. Só que o seu equipamento consome em watts, e os dois não são a mesma coisa.

A relação, pela explicação da Eaton:

watts = VA × fator de potência

O fator de potência fica entre 0 e 1. Um nobreak de 1000 VA com fator 0,6 entrega no máximo 600 W. A maioria das fichas técnicas traz as duas capacidades, e a que importa para você é a de watts.

A própria Eaton dá duas referências úteis:

  • equipamento de TI mais novo, como servidores, costuma ter fator de potência de 0,9 ou mais;
  • para dimensionar, considere cerca de 1,2 vez a carga que você quer proteger, para ter folga.

Some o consumo real #

Antes de olhar nobreak, descubra quanto o seu homelab consome. Não use a potência da fonte, que é o máximo que ela aguenta, não o que ela gasta.

O jeito mais simples é um medidor de tomada. Some tudo que vai ficar no nobreak: servidor, modem, roteador, switch e, se tiver, NAS.

No meu caso, o modem de fibra, o roteador Wi-Fi e o Proxmox somam de 30 W a 50 W. Contei como chegar nesse número e quanto ele custa por mês no post sobre o custo de um homelab ligado 24h.

Com a carga em mãos, a conta de capacidade fica fácil. Um homelab de 50 W, com a folga de 1,2, pede pelo menos 60 W de capacidade. Quase qualquer nobreak passa. O que muda é a autonomia.

Autonomia é outra conta #

Capacidade em watts diz quanto o nobreak aguenta ligado. Quanto tempo ele aguenta depende da bateria. Nobreaks pequenos costumam ter baterias pequenas, pensadas para dar alguns minutos, tempo de salvar o trabalho e desligar.

Para saber a autonomia com a sua carga, procure a tabela ou gráfico de autonomia na ficha técnica do modelo. Os fabricantes publicam o tempo estimado para várias cargas. Com 50 W, um nobreak pequeno pode durar bem mais do que na carga máxima, mas o número certo está na tabela, não na intuição.

Os três tipos de nobreak #

Os fabricantes dividem os nobreaks em três famílias principais:

  • Standby (offline): a carga fica na tomada. Quando a energia cai, ele passa para a bateria. É o mais barato e o mais comum para computador de casa.
  • Interativo (line-interactive): além de passar para a bateria, ele corrige variações de tensão sem gastar bateria. Bom para lugar com energia que oscila muito.
  • Online (dupla conversão): a carga é sempre alimentada pelo inversor. Não há tempo de transferência, e a energia de saída é a mais limpa. É o mais caro, esquenta mais e gasta mais energia, porque converte tudo o tempo todo.

Para um homelab, o interativo costuma ser o ponto de equilíbrio. O online faz mais sentido quando a energia da sua região é muito ruim.

Senoide pura ou aproximada #

Esse é o detalhe que mais derruba servidor. Quando está na bateria, o nobreak gera a energia com um inversor, e a forma da onda depende do modelo:

  • senoidal pura: igual à da tomada;
  • senoidal aproximada (ou “simulada”, “stepped”): uma onda em degraus.
Osciloscópio mostrando a onda em degraus de um nobreak APC Back-UPS 550 na bateria
Onda em degraus de um nobreak na bateria. Foto: Timothy Quill (CC BY-SA 4.0).

A CyberPower explica o problema: a onda aproximada passa por um momento de saída zero a cada troca de fase. Computadores com fonte PFC ativo, comum em fontes mais eficientes, podem desligar ou travar quando o nobreak passa para a bateria.

Nem toda fonte reage igual, e há relatos dos dois lados. Na prática:

  1. Veja se a fonte do seu servidor tem PFC ativo. A etiqueta ou o manual costumam dizer.
  2. Se tiver, prefira nobreak senoidal puro.
  3. Para modem, roteador e mini PCs com fonte externa, o problema é menos comum, mas teste.

Desligamento automático #

Um nobreak só segura até a bateria acabar. Se ninguém desligar o servidor antes, ele cai do mesmo jeito, só que mais tarde. Para isso existe o NUT (Network UPS Tools): ele conversa com o nobreak pela USB e desliga as máquinas quando a bateria fica baixa.

Antes de comprar, confira o modelo na lista de compatibilidade do NUT, que mostra o nível de suporte e o driver de cada aparelho. Nobreak com porta USB de dados ajuda muito.

Confesso que aqui em casa isso ainda é um ponto aberto: não tenho desligamento automático configurado. Com 8 horas de autonomia, a EcoFlow me dá tempo, mas não é solução.

O que eu olharia na ficha #

  1. Capacidade em watts, não só em VA, com 20% de folga sobre a carga medida.
  2. Tabela de autonomia com a carga do seu homelab.
  3. Tipo: interativo para a maioria dos casos.
  4. Forma de onda: senoidal pura se o servidor tem fonte PFC ativo.
  5. Porta USB de dados e modelo na lista do NUT.
  6. Tomadas suficientes para servidor, modem e roteador. Sem rede, o servidor no ar não serve para muita coisa.

Resumindo #

  • VA × fator de potência = watts. Compare pela capacidade em watts.
  • Meça o consumo real antes de comprar. Um homelab pequeno gasta pouco.
  • Autonomia está na tabela do fabricante, não no número da caixa.
  • Interativo é o tipo que mais se encaixa num homelab.
  • Senoide pura se a fonte tem PFC ativo. Teste tirando da tomada.
  • NUT para desligar sozinho antes de a bateria acabar.

Nobreak bom é aquele que você testou. O resto da ficha técnica só ajuda a chegar nele.

Fontes e documentação